Pontos de Cultura invertem a pirâmide da construção do Estado, diz secretário
Alessandra Bastos*
Enviada especial
Belo Horizonte (MG) – O secretário de Programas e Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Célio Turino, fala à Agência Brasil durante realização da Teia 2007. É a segunda edição do encontro anual de cultura Belo Horizonte – “Vender empadinha aos dez anos foi a sua formatura”. Assim o secretário de Políticas e Programas Culturais do Ministério da Cultura, Célio Turino, foi anunciado na Teia 2007, a segunda edição do encontro anual dos Pontos de Cultura do país.
“Peço a bênção aos mestres e crioulos, curadores, pajés, artesãos, atores, sanfoneiros, repentistas e rendeiros, foliões e capoeiristas”, respondeu Turino.
Com isso, o evento estava oficialmente aberto, na noite de ontem (7), no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG). Hoje (8) de manhã, o secretário concedeu uma rápida entrevista à Agência Brasil.
No bate-papo, ele disse ser uma pessoa que tem sempre certeza do possível. “É a simplicidade que funciona como uma encubadora”, diz Turino sobre a idéia dos Pontos de Cultura.
Em outubro, o governo lançou o Programa Mais Cultura para ampliar os Pontos de Cultura de 650 para 20 mil, até 2010, por meio de convênios com 11 ministérios. A previsão é que sejam investidos R$ 4,7 bilhões até lá.
Agência Brasil: Os Pontos de Cultura começaram como uma pequena idéia e agora devem chegar a 20 mil. É uma revolução silenciosa?
Célio Turino: Eu evito usar esse termo, mas talvez seja. O que a gente tem feito é o reconhecimento da iniciativa criadora do povo brasileiro. Por isso o programa se espalhou tão rapidamente e tem dado certo, apesar das dificuldades e dos percalços do governo. Ele tem avançado por encantamento, pois não envolve apenas o processo de razão e reflexão teórica. Ele tem percepção de sentimentos. Isso tem dado um caldo de cultura magnífico. O Ponto de Cultura vai ter que começar a ser percebido como algo que extrapola o campo da cultura, das artes e da cidadania. Ele representa o ensaio de um outro tipo de democracia que está fervilhando no Brasil e não é percebida.
ABr: Em que sentido?
CT: A democracia formal é das instituições, como a do Congresso Nacional, que a cada seis meses vive um novo tipo de crise, em uma distância total da dimensão real que o povo tem dos problemas da nação. No entanto, o que segura o país é a democracia dos de baixo, como falava o professor Milton Santos [um dos principais pensadores da geografia brasileira, falecido em 2001].
ABr: E como a Teia 2007 se encaixa nisso?
CT: É esse momento de costura dos pontos que vai dando liga e apresentando um outro jeito brasileiro. Aliás o jeito brasileiro de gostar do Brasil, mas que era meio escondido.
ABr: O programa destina recursos à ponta sem dizer como ela tem que fazer, dando autonomia aos produtores culturais. É esse o diferencial?
CT: Não estou menosprezando o recurso [cada ponto recebe R$ 5 mil por mês, totalizando R$ 60 mil por ano]. Mais importante que ele, porém, é aplicar diretamente em uma favela, em um assentamento, em um grupo tradicional, em música experimental, teatro de vanguarda ou dança contemporânea. Isso representa uma revolução. São recursos que não se perdem nos meandros do governo. É uma pirâmide como ela tem mesmo que ser feita. A construção do Estado em todos os países funciona como uma pirâmide invertida. O vértice fica pra baixo e a parte mais alargada fica em cima, quando deveria ser o contrário: a sociedade contribui com impostos, o Estado é bastante enxuto, o que não significa ter pouco quadro, não é esse discurso neoliberal. Mas é um Estado que cria repasse rápido de recursos para que a sociedade se desenvolva. Essa é a experiência dos Pontos de Cultura.
ABr: Agora o senhor usou o termo revolução…
CT: Ah, sim, nesse sentido da mudança. Às vezes, a gente tem receio porque o termo perdeu um pouco o sentido. A verdadeira revolução é aquela que nasce da vontade do povo, já disse alguém. A emancipação do povo será obra do próprio povo. É isso que a gente vem buscando fomentar nos Pontos de Cultura. E que essas pessoas que sempre quiseram bloquear um processo de protagonismo social não ouçam essa entrevista, porque ainda é um tempo de cultivo até que as coisas se estruturem. Nasceu do Estado, mas não nasceu totalmente, porque o Estado reconheceu a sociedade.





