Algumas das correntes mais relevantes da filosofia do século XX assumiram para si a tarefa de fornecer quadros de reflexão sobre os impasses das sociedades capitalistas. Partindo da certeza de que as expectativas abertas pela modernidade filosófica só poderiam ser realizadas através de uma compreensão clara dos desafios próprios a contextos sócio-políticos de ação, tais correntes não temeram em dar a problemas ligados a modos de racionalização de vínculos sociais, o estatuto de objetos de indiscutível dignidade filosófica. Pois estava claro que a razão demonstra sua real configuração sobretudo através das estratégias de justificação de práticas sociais em operação nas relações de sujeitos às instituições, à família ou a si mesmo em um determinado tempo histórico.
No entanto, tal recuperação filosófica do campo da teoria social foi, muitas vezes, realizada graças a um movimento que consistia em operar recursos sistemáticos à psicanálise. Esta articulação cerrada entre filosofia, teoria social e psicanálise perpassa a filosofia do século XX desde a enunciação do programa interdisciplinar da primeira geração da Escola de Frankfurt. Ela será novamente encontrada em filósofos fundamentais do pensamento francês contemporâneo, como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jean-François Lyotard, mesmo que, nestes casos, o recurso à psicanálise seja, muitas vezes, marcado pela ambivalência de quem reconhece que uma clínica inovadora e prenhe de novas problematizações pode ser solidária de práticas disciplinares que bloqueiam a reconstituição de vínculos sociais a partir de novas bases.
Tais experiências intelectuais díspares tinham em comum, no entanto, a certeza de que a compreensão dos modos de racionalização em operação nas sociedades capitalistas era dependente da análise da maneira com que sujeitos investiam libidinalmente vínculos sociais. O recurso à psicanálise era, sobretudo, recurso a uma teoria que se recusa a deixar de operar no ponto exato de contato entre estruturas da subjetividade e modos de interação social. Recusa resultante da certeza de que um campo é sempre exposição sintomática do outro e de que, se a cura em relação a certas patologias subjetivas sempre obedece à particularidade do caso, ela não pode, no entanto, deixar de levar o sujeito a reconfigurar seus vínculos com a linguagem e com as instituições sociais.
É levando em conta a necessidade de atualizar tal programa de pesquisas e de fornecer uma estrutura institucional capaz de viabilizar trabalhos conjuntos, que professores do Instituto de Psicologia e do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo constituíram o Laboratório de Estudos em Teoria Social , Filosofia e Psicanálise (LATESFIP/USP): um laboratório interdisciplinar de pesquisas vinculado aos dois departamentos.
Este seminário é a primeira exposição de pesquisas desenvolvidas durante os últimos dois anos. Elas constituem o marco para uma reflexão mais ampla sobre patologias do social, ou seja, sobre a maneira com que conceitos clínicos podem ser mobilizados para compreender aquilo que bloqueia a aspiração de racionalidade de vínculos sociais nas sociedades capitalistas.
Local Universidade de São Paulo FFLCH Sala 8
Conjunto Didático de Filosofia e Ciências Sociais
Informações e inscrições www.fflch.usp.br/df/site/
Programação
SEGUNDA-FEIRA, 12/11
10h-12h: CONFERÊNCIA DE ABERTURA
Vladimir Safatle (USP) Patologias do Social: Um Programa de Pesquisa
Raul Pacheco (PUC/SP) A ideologia do indivíduo como causa da inércia totalitária do laço social no capitalismo
13:30h-15h GOZO E SOCIEDADE DE CONSUMO
Alfred Michaelis (DF-USP) Qual o lugar da teoria da sublimação no panorama da sociedade de consumo?
Conrado Ramos (PS -PUC/SP) Consumismo e gozo: uma compreensão da ideologia entre Adorno e Lacan
Guilherme M. Rocha(DF-USP) Paixões fatais: figuras do gozo na cena trance
15h15-17h15 FUNÇÃO SOCIAL DA CLÍNICA
Cláudia G. Ferraz (LATESFIP) Sexualidade como categoria central da clínica e do político: um debate entre Foucault e a Psicanálise
Natasha Frias Nahin Bazhuni (IP-USP) Acompanhamento terapêutico: discussões sobre o terapêutico e o clínico
Paula de Paula (PS – PUC/SP) O amor no final da análise: um amor mais digno que a solidariedade
Ronaldo Torres (IP-USP) Caminhos do desejo e da ética em psicanálise
17h30-19h PATOLOGIAS DA LINGUAGEM
Fuad Kyrillos Neto (PS – PUC/SP) Crítica à abordagem exclusivamente político-social do sofrimento psíquico: discurso ideológico e estrutura psicótica
Gilson Iannini (DF-USP) Estilo e crítica lacaniana da metalinguagem
Vinícius de Azevedo S. (PS –PUC/SP) Lacan com Marx: o sujeito está para a mercadoria assim como o significante está para o capital
TERÇA-FEIRA 13/11
10h-12h BIOPOLÍTICA
Daniel Nascimento (LATESFIP) Técnica e Liberalismo
Herivelto Souza (DF-USP) Pequena economia libidinal do dispositivo político
Leandro A. R. dos Santos (IP-USP) As patologizações e seus novos disfarces: a implicação frente ao discurso médico e as novas doenças
Silvio R. G. Carneiro (DF-USP) Marcuse e Foucault: em torno da hipótese repressiva
13:30h-15h OPACIDADE DO SUJEITO?
Ana P. L. Gianesi (IP-USP) Causalidade e Psicanálise
Carolina Noto (DF-USP) O sujeito ético em Foucault: de uma ontologia do presente a uma estética da existência
Maria de Fátima Galindo (IP-USP) Apresentação clínica: o sujeito, a ciência e a verdade
15h15-16h45 DOENÇA DO NORMATIVO
Carlos H. Pissardo (DF-USP) Entre o impulso e a razão: Adorno e sua crítica à racionalidade ocidental
Celso R. F. Filho História e Psicanálise: Ciências Afins?
Mayra Saito (DF-USP) Exceção e Norma entre Adorno e Benjamin
17h-18h30 EXPERIÊNCIAS DO DISFORME
Henrique Xavier (DF-USP) Informe, uma estética do desclassificado
Rodrigo Camargo (DL-USP) Liberdade e Liberdades
Paulo Marcos Rona Badiou, ontologia, metapsicologia?
QUARTA-FEIRA 14/11
10h-12h DISCURSO IDEOLÓGICO E CONTROLE SOCIAL
Isabela Fonseca Cardoza (PS – PUC/SP) O discurso do capitalista e as montagens perversas no laço social da atualidade
Maria Eduarda H. de O. Lyrio (PS – PUC/SP) A humilhação social na sociedade capitalista contemporânea
Nahema N. B. de Oliveira (DS-USP) Notas sobre a educação na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle
Szilvia Simai (Birkbeck College – Londres) On symbolic false consciousnessA
13:30h-15h DESCENTRAMENTO DO SUJEITO
Abenon Menegassi (IP-USP) Sobre o conceito de destituição subjetiva em Lacan
Ronaldo Manzi (DF-USP) Um possível anonimato na visibilidade
Silvana de S. Ramos (DF-USP) Merleau-Ponty e os impasses da economia libidinal
15h15-16h15 TRANSGRESSÃO E SEXUALIDADE
Carlos E. Ribeiro (DF-USP) A normalidade sexual e o olhar clínico – dos imperativos éticos burgueses à nova espacialidade sexual
Luisa Torrano (DF-USP) Violação Permissiva
16h30-18h30: CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO
Christian Dunker (IP-USP) Ontologia Política da Clínica
Oswaldo Giacóia (IFCH – UNICAMP) Avatares da Penologia em tempos de Bio-Política
LATESFIP Departamento de Filosofia USP





