Entrevista com MV Bill, da revista Raiz 01.

RAIZ DA QUESTÃO

A PERIFERIA DO MUNDO E O MUNDO DA PERIFERIA.

EM LONDRES, O RAPPER
CARIOCA MV BILL DIZ QUE A CULTURA POPULAR E NACIONAL TAMBÉM SE FAZ DE APROPRIAÇÕES DO ESTRANGEIRO. ENTREVISTA A THEREZA DANTAS

Quais as referências culturais das periferias no Brasil – músicas, filmes, literatura?
Se for para ter como referência o que toca nas rádios e o que passa na TV, nos tornamos um povo sem referência. Não que elas não existam, mas parece que a todo momento temos que nos auto-afirmar para desconstruir a imagem de coitados e subalternos.

A mídia central vem passando que imagem da periferia brasileira?
A de que os favelados só conseguem ascensão por uma arte que essa mídia despreza, ou através da criminalidade. Depois, nos enfiam goela abaixo seus artistas, que em muitos casos são verdadeiras aberrações culturais.

Cultura brasileira, cultura popular, o que é e em que pé está?
Vejo violação tanto na cultura brasileira, a que tem a ver com a história do país, quanto na cultura popular, a que está na boca do povo. Aqui em Londres estou diante de uma situação paradoxal: a música brasileira conhecida por aqui está longe das “babas” que transitam pelas FMs brasucas. As pessoas mais antenadas conhecem mais da nossa história do que nós mesmos. Tem uma casa aqui chamada Guanabara, que toca música brasileira o tempo todo; no telão passam documentários falando da construção do Brasil, da musicalidade do Nordeste, da nossa multirracialidade. É mais fácil aprender sobre nós mesmos num club de Londres do que na TV brasileira (pelo menos para mim).

Sua experiência como escritor de Cabeça de porco (*) contribuiu para sua experiência como músico?
Cabeça de porco me inspirou e continua a inspirar em várias atividades, não somente as ligadas à música. Um episódio musical foi muito forte: Soldado morto foi composta enquanto fazíamos as entrevistas, e à medida que os meus entrevistados iam morrendo, a composição, de forma trágica, ia ganhando seu final, como na vida deles.

Onde está a resistência cultural, hoje, no Brasil?
No jongo da Serrinha, nas rodas de partido alto do Rio, no maracatu pernambucano, no congado de BH, no funk carioca, no candomblé baiano, na música gaudéria do Sul… Por não estarem na mídia não quer dizer que seus artistas estejam mortos. Muitos são ovacionados aqui na Europa.

É legítima a apropriação de manifestações estrangeiras na construção de uma cultura brasileira genuína?

O caso do hip-hop é o mais evidente.

O hip-hop foi descoberto por um DJ jamaicano chamado Kool Herc, que em suas viagens entre o Caribe e a África do Sul descobriu que o canto falado das tribos africanas se assemelhava a um tipo de reggae feito na terra dele. A descoberta foi levada para os Estados Unidos e lá foi batizada de rap (rythm and poetry). Ao balanço foi acrescentada uma poesia que esbravejava sobre as mazelas do dia-a-dia, como o preconceito racial e as condições de moradia para o povo preto. Mais tarde o rap se juntou a outras manifestações, como a dança break, o grafite e o DJ; juntos, eles formaram a cultura hip-hop, hoje um fenômeno mundial. As culturas locais agregam as raízes do hip-hop à sua essência.

Hoje o hip-hop é a única forma musical a mexer em assuntos considerados polêmicos no Brasil; é a única a demonstrar preocupação social, e tem tirado vários jovens da invisibilidade sem a necessidade de um delito. Ou seja, se bandas como Charlie Brown Jr., Legião Urbana e Paralamas do Sucesso não deixam de ser maravilhosas só porque o rock não é brasileiro, não vejo problema algum em usarmos o hip-hop como instrumento de transformação, aliado às características brasileiras.

(*) O livro Cabeça de porco é o resultado de um trabalho em duas fontes: entrevistas e imagens feitas por MV Bill e seu empresário Celso Athayde nos últimos sete anos, em favelas de nove estados brasileiros, com crianças e jovens que vivem no mundo do crime. A esta pesquisa original se associaram os textos do antropólogo Luiz Eduardo Soares – um conjunto de registros etnográficos sobre juventude, violência e polícia.

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